sexta-feira, 20 de agosto de 2021

CEFAM: UMA EXPERIÊNCIA TRANSFORMADORA, COMO A ESCOLA DEVE SER (Telma Rubiane R. de Melo)

    O escritor John Dewey (1859-1952) foi alguém que acreditou na educação. Para ele, se tinha alguma instituição capaz de transformar a sociedade em um ambiente mais justo e igualitário, esse lugar era a escola. E por acreditar nisso com tanta, tanta força, ele não só saiu divulgando isso em seus artigos, como foi lá e construiu esse modelo de escola. Isso nos Estados Unidos do início do século. Não era pouca coisa. As palavras de Dewey me lembram muito o período em que entrei no magistério, em um projeto de formação de professores, já extinto, chamado CEFAM (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério), em São José dos Campos (SP).

                                                              Obra "Vida e Alegria", de Joarez Filho (acervo pessoal)
    

    Estávamos em 1991, e eu tinha 14 anos. Sabia pouco, muito pouco da vida, apenas o suficiente para sobreviver e não arrumar confusão no bairro em que vivia, com meus pais, quatro irmãos e uma sobrinha. Éramos pobres, isso eu sabia, mas a dimensão social do que era ser pobre, causas, consequências e relação com a política e a economia do país, bem, disso eu não tinha a menor ideia. Via a pobreza como uma condição natural, comum a todos com quem eu convivia: meus amigos eram pobres, meus vizinhos eram pobres; meus primos tios avós, todos eram pobres, como eu, como nós. Havia estudado a vida inteira em escola pública, de periferia, e convivido com crianças pobres como eu, que nunca se perguntaram porque eram pobres, e que nunca haviam sido levadas a refletir sobre a pobreza como algo além de um fato, uma condição.
    Nossos professores, eles provavelmente não eram pobres, pelo menos não como a gente, por causa das roupas, dos carros, do modo como falavam e agiam. E eles jamais, nunca mesmo, falavam sobre pobreza ou riqueza ou coisas do tipo. Isso não era matéria do livro, nem da lousa. O mundo do qual se tratava na sala de aula era um mundo à parte, totalmente diferente do mundo em que vivíamos, e nos acostumamos muito cedo a isso. Se tínhamos alguma pergunta, se quiséssemos fazer alguma relação entre esses dois mundos tão distantes, o deles e o nosso, a resposta era “Não, isso é outra coisa”. Mas que coisa era essa, afinal, que a gente era? Pergunta difícil, que ninguém se decidia a responder. Era a pedagogia feita para silenciar.
    Foi com essa consciência parca, miúda de mim mesma e de minha origem, que me inscrevi para fazer o magistério no CEFAM. Naquela época, na vida que vivíamos, não havia isso de orientação dos pais. Contanto que não fosse um crime, você ia e fazia o que achava que devia fazer, porque os pais estavam ocupados demais trabalhando, sufocados pelo dia a dia e pelos solavancos permanentes da sobrevivência. Era a gente pela gente mesmo, e nossos instintos. Com sorte, algum amigo para ajudar. Comigo foi assim. Eu e minha amiga decidimos pelo CEFAM, depois de terminar a 8ª série. Magistério, porque dava uma profissão, o que precisávamos muito. CEFAM, porque oferecia dinheiro, um valor suficiente para pagar o transporte e o almoço, já que o curso era integral. Entre mim e todo esse reino de vantagens, um processo seletivo, um mundo...
    Quando se chega a um lugar com pessoas diferentes de você, em que as coisas mais simples, como cadeira, mesa, copo, chão, não são como as suas, é instintivo se esconder. É uma defesa que a gente aprende desde cedo. Foi assim na entrevista para entrar no CEFAM. Eu, criatura crua, imobilizada pelo medo de que minha fala ou meus gestos denunciassem quem eu era, fui tateando, respondendo as perguntas sem florear, temendo… Afinal, no vão entre uma palavra e outra, em um deslize, podia cair em erro, ser pega, ser descoberta, e fim. Mas a fala também pode ser mão esticada, recepção, e foi então que eu percebi que a história que eu tinha para contar, e que eu silenciava, o lugar de onde eu vinha, que eu escondia, era exatamente o que aqueles professores que me entrevistavam desejavam ver em mim. Você não sabe o sentido de ser bem vindo pelo que você é, até o dia em que você de fato o é. E foi assim que eu me senti.
    John Dewey lutou por uma educação para a atuação social, em que a escola funcionasse como uma comunidade comprometida em dar aos seus estudantes a oportunidade de vivenciar a participação democrática, e a partir dela, se incluir na sociedade. Ele foi um pensador que superou os limites da teoria para conceber uma proposta de educação para a prática, no momento em que essa transformação era pungente, dados o crescimento do capitalismo na sociedade americana e o aprofundamento das diferenças de classe. Dewey foi um pragmático de fé, que acreditava no poder transformador da escola, e em sua face indissociavelmente política, porque espaço de construção da cidadania.
    Analisando a proposta do CEFAM com o olhar atual, adulto, vejo que ela se aproximava muito dessa educação transformadora de Dewey, e do objetivo de formar cidadãos conscientes da realidade em que estavam inseridos, preparados para participar da sociedade com consciência crítica. Nossos professores promoviam debates, fóruns, entrevistas, experiências de laboratório, palestras, e muitas, muitas discussões. Votava-se sobre tudo. Vivíamos em um ambiente democrático, em que todos mereciam ser ouvidos e toda problemática merecia análise, como preconizava Dewey ao tratar sobre “investigação criativa e científica aos problemas sociais”. Foi lá que eu aprendi a ter consciência de classe, e senti as dores que advém dela.
    Éramos adolescentes de 14 a 17 anos, e já organizávamos passeatas, escrevíamos manifestos, promovíamos protestos! Ainda me lembro de irmos para a capital, em ônibus lotados, para participar do “Fora Collor!”, na Avenida Paulista, em minha primeira manifestação nacional. Todos nós lá, meninos e meninas verdinhos, em construção, cheios de sonhos e esperança, destemidos. Nossos educadores, firmemente pautados em uma proposta pedagógica que deixaria Dewey orgulhoso, estavam sempre conosco, para nos apoiar. Eles não nos tratavam como diferentes, tampouco como iguais: apostavam no nosso vir a ser, e isso faz toda a diferença na educação. Acreditar no porvir.
    Eu passei por essa experiência, e todo meu percurso posterior foi modificado por ela. Dewey estava certo. Educação transforma. Podem apostar que sim.

terça-feira, 8 de junho de 2021

A LEITURA COMO ACONTECIMENTO

                                                                                                                                  Telma R. R. de Melo


    A mão que me trouxe para a leitura foi a da minha irmã mais velha. Eu a admirava, porque ela representava o que eu aspirava um dia ser: ela era linda, independente, cheia de amigos, e eu, inconscientemente, procurava fazer o que ela fazia, resguardados nossos sete anos de diferença. E ela lia, muito, embora um tipo de livro específico: romances, daqueles de banca, com nomes de mulher.
    Um dia, peguei um deles para ler. Eu devia ter uns oito anos. Claro que foi uma decepção. Primeiro, eu não entendia muito bem o que acontecia ali, pois eram sentimentos e desejos que não estavam no meu universo de criança; além disso, havia uma porção de nomes de lugares e pessoas em inglês, que eram como se fossem pedras no meio da minha leitura. Eu queria ler, como ela, mas com certeza não aquilo.
Não tínhamos livros em casa, além desses romances e das revistas de cifras do meu irmão. O que lia, portanto, lia na escola, e apenas o que era oferecido pelo professor, ou seja, os textos que estavam no livro didático. Não havia biblioteca ou sala de leitura, e hoje eu me pego pensando como uma ação tão óbvia, como incentivar a leitura nas crianças, não era preocupação de ninguém…
Então eu dependia do acaso para ler, da sorte. Lembro de me encantar com a bíblia para crianças que minha prima comprou para os filhos, e passar todo meu tempo livre com ela, até chegar ao final. Era um livro grande, com ilustrações lindas, que me ajudou a construir uma versão mais colorida dos ensinamentos do catecismo, sempre tão severo. Foi difícil me despedir dele, quando ela resolveu que ia finalmente lê-lo para suas crianças. Afinal, se eu tinha gostado tanto, é porque devia ser bom...
Anos depois, tive outro encontro com a sorte. Todos os dezembros, nas férias, eu ia para a casa da minha tia, em Monteiro Lobato, e ficava por lá um mês. Na época, a cidade já era estância turística, lugar em que as pessoas tinham casa de campo, e vinham só para relaxar. Tia Maria fazia faxina em uma dessas casas. Os donos moravam na capital, e vinham aos fins de semana; então, ela limpava a casa sempre na sexta-feira, pela manhã. Em uma dessas sextas, tia Maria me levou com ela para ajudá-la. Logo que cheguei lá, vi, na sala de estar, a estante cheia de livros… Passei um bom tempo olhando as lombadas, lendo os nomes, tentando descobrir que história eles guardavam para mim. Eram muitos, mas o livro que mais me fascinou foi “O Triângulo das Bermudas”, de Charles Berlitz. Nunca tinha lido um livro tão grosso, mas ele parecia tão interessante, que me aventurei… Não ajudei minha tia naquele dia, e nem em nenhum outro dia em que voltei na casa.
    Foi uma leitura em fases, porque eu não podia levá-lo comigo. Ele não me pertencia. Então, esperava, angustiada, até a próxima sexta-feira, para continuar a lê-lo. Passei o mês assim, até que, no final de janeiro, voltei para minha casa, em São José, e fiquei esperando até o próximo ano… Passei uns três anos dessa maneira, lendo Charles Berlitz aos poucos, rezando para que ele ainda estivesse lá, me esperando para contar os seus mistérios. Era como um caso de amor, cheio de idas e vindas; encontros e separações. Nunca terminei a leitura, e nem entendi direito o que se passava naquela área remota do planeta, mas aquele livro foi uma companhia especial para mim, pois fazia me sentir adulta, compartilhando um segredo que só eu e ele sabíamos.
    A fortuna só veio mesmo, para mim, quando entrei no magistério e comecei a fazer estágio em uma escola pública de São José, em um dos prédios mais antigos do centro da cidade. Como estagiários em sala de aula normalmente não eram bem vindos pelo professor, me perguntaram se eu poderia ajudar a organizar os livros na biblioteca da escola. Eu me controlei para não demonstrar a euforia que aquelas palavras provocaram em mim! Quando eu entrei na sala, com estantes repletas de livros, e caixas e caixas fechadas deles, era como se de repente eu pudesse voar. Era uma sala suja e escura, mas o que eu via ali era uma janela imensa, para um céu azul e límpido — minha versão pessoal de paraíso. Passei a ficar as tarde lá, uma ou duas vezes por semana, e a diretora também me permitia levar os livros para casa, porque via que para mim eles tinham grande valor. Foi ali, naquele espaço empoeirado, que conheci Lígia Fagundes Telles e “As meninas”, que ficamos próximas. Elas me contaram sobre desejo, sexo e amor; sobre tristeza e solidão; sobre maldade. Enfim, sobre o ser humano, sob o fundo vergonhoso da ditadura, que eu sabia das aulas de história, mas que só compreendi mesmo pela voz delas.
Quando me tornei professora, aos 18 anos, me transformei também em uma contadora de histórias. Primeiro, na Educação Infantil; depois, na Sala de Leitura. Eu me divertia muito! Lia para as crianças, dramatizava os contos, e depois indicava as obras para que elas levassem para a casa. Eram tempos de fartura! Eu aprendi bastante, nessa época, sobre literatura infantil e juvenil, porque precisava ler para selecionar o que poderia ser indicado para os alunos. Mais velha, já trabalhando como professora de Língua Portuguesa, abria todas as aulas com leitura de poemas, notícias, enfim, textos curtos. Com o tempo, os alunos passaram a fazer o mesmo, e levar os textos que gostariam de ler para todos. Acho que consegui passar minha paixão para eles, e não posso imaginar as aulas de Língua Portuguesa de outra maneira que não seja com leitura e compartilhamento.
Tive excelentes professores ao longo da minha vida escolar e acadêmica, pessoas realmente inspiradoras, que me ensinaram muitos valores, como foco, disciplina, posicionamento crítico, senso estético, e serviram de bons modelos na minha profissão. Com certeza eles contribuíram para eu fazer as escolhas certas. Sou muito grata a todos. No entanto, minhas experiências pessoais mais marcantes de leitura nunca foram as escolarizadas. Meu encantamento pelos livros vem de antes, dos acasos, tropeços e encontros da minha trajetória. A escola me instrumentalizou, sim, e muito, para a leitura e para a escrita, mas não me deu paixão, do mesmo modo que não colaborou para construir em Paulo Leminski um amante da Língua Portuguesa, como ele sugere em seu poema "Meu Professor de Análise Sintática". Ainda assim, ele se transformou em um poeta, mestre nessa matéria etérea que é a língua. Ainda assim, eu me transformei em uma leitora.
    Às vezes acho que eu descobri algo que meus professores não quiseram ou não souberam compartilhar, que é esse prazer, esse deleite que a leitura dá, abstenção da realidade, sublimação do presente, possibilidade de estar em outro lugar, vivendo uma outra história, ou simplesmente aprendendo com alguém que tem algo a dizer, ao mesmo tempo que se vive o agora. A beleza disso é que, se o fascínio pela leitura aconteceu comigo, pode ser que aconteça a qualquer um. A tristeza é que o gosto pela leitura certamente não deveria depender do acaso, pois, dada sua reconhecida importância para a inserção do indivíduo na sociedade, ela deveria ser incentivada desde cedo, tanto pela família quanto pela escola.
    Decisivamente, nos dias atuais, livros, revistas, jornais e textos escritos são muito mais acessíveis do que o eram na década de 80, em que me alfabetizei, especialmente com a contribuição das mídias digitais. Apenas o acesso, contudo, não garante a construção de leitores. É preciso também bons modelos. A criação do hábito da leitura, que diferencia o indivíduo que lê para as tarefas escolares, daquele que lê para si mesmo, depende muito da relação estabelecida com a escrita na escola, e essa, sem dúvida alguma, é influenciada drasticamente pelo trabalho dos professores. Sendo assim, bons educadores são essenciais para o desenvolvimento de leitores, e para cumprir essa missão são necessários professores que acreditem no poder da leitura. Ou seja, professores leitores. Sem eles, dependeremos sempre da sorte.

UMA LITERATURA FANTÁSTICA PARA AS DORES REAIS DE NOSSA AMÉRICA LATINA

 ALLENDE, Isabel. A Casa dos Espíritos. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1994.



Telma R. R. de Melo


Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem. 
 Pablo Neruda


    O romance de estreia de Isabel Allende, “A casa dos espíritos”, de 1982, versa sobre a história das quatro gerações da família Del Valle (1905 -1975), cuja personagem central é Clara, que surge menina na narrativa, com poderes sobrenaturais, e a termina como vó fantasma que perambula por uma mansão já em decadência. Por intermédio dos ricos e ilustres Del Valle, que mais tarde se unem aos Trueba, o leitor conhece várias passagens da história chilena, desde seus grandes latifúndios herdados pelo colonialismo e marcados pelo patriarcado, até os duros porões de sua terrível ditadura.
   
A obra se altera entre a primeira e terceira pessoa, entre as vozes distintas e opostas do amargo e ressentido viúvo de Clara, Esteban Trueba, que representa o que há de pior em termos de valores nas oligarquias de direita, e da jovem Alba, neta de Clara e militante revolucionária de esquerda. Entre essas duas vozes, os cadernos da própria Clara, trazendo os registros familiares dessas memórias que se dividem entre uma biografia e uma ficção de realismo fantástico.

    A riqueza e exuberância da cultura latino americana está representada no livro “A casa dos espíritos”, tanto na grande quantidade de personagens e de eventos fantásticos, quanto nos registros da fartura das festas, com abastança de comida, danças e música; nas crenças, que ilustram o sincretismo ocorrido nessas terras entre a fé católica e o folclore regional, e na opulência e sensualidade desse povo que não se furta aos desejos da carne. No entanto, a miséria, a fome e a catástrofe também estão presentes no livro, especialmente na apresentação da vida dos camponeses, envolta em ignorância e dependência dos humores de seus patrões.

    A história da família Del Valle-Trueba é, de certa forma, a história dos países latino-americanos, resguardada toda a magia que nos faltou para suportar as mazelas dessa trajetória, e que no livro funciona como um opioide. Ali está representada a destruição da cultura ameríndia, e a impotência desses povos contra os europeus colonizadores, que os reduziram a servos de feudos então chamados de fazenda. Também ali está marcada a ignorância cultural que engendrou o eterno sentimento de inferioridade que ainda nos marca a nós, donos de uma das culturas mais ricas do planeta: vergonha da língua, vergonha dos hábitos, vergonha das crenças.

    O panorama político, apresentado como fundo para a narrativa, traz a ascensão e a queda de um governo comprometido com as causas camponesas, socialista por definição, e representado pela figura de “O Candidato”, para o qual a autora não dá nome no texto, mas que, pelas fortes características biográficas da história, sabe-se tratar-se do ex-presidente Salvador Allende, deposto durante o golpe militar de 1973, e tio da autora. Repete-se no Chile os governos ditatoriais que já se apossavam das jovens democracias latino-americanas. E então, lá, como aqui, temos os mantos negros da censura, dos campos de concentração e da tortura, às quais nem mesmo “O Poeta” (Pablo Neruda, também não nominado) pôde suportar.


    Daí certo desconforto que nos dá diante desse espelho de águas turvas para nossos próprios infortúnios. Trata-se de uma história emocionante, brilhante em sua abundância de descrição de cenários e personagens maravilhosos e, ao mesmo tempo, tão reais em suas dores e pungências. Leitura que faz chorar, bem mais do que pelos dramas vivenciados pelos personagens, mas por se saber que a América Latina mal se curou de suas antigas feridas, outras novas já se abrem, em uma mão que pede socorro.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

DA FRAGMENTAÇÃO À ELABORAÇÃO: O PAPEL DO PROFESSOR NO ENSINO DA LEITURA DIGITAL

  

Telma Rubiane Rodrigues de Melo


A leitura tem se transformado ao longo dos anos; afinal, enquanto fenômeno social, está intimamente ligada à cultura de seu tempo. De prática silenciosa e contemplativa, na Idade Média, passou, com a Revolução Industrial e o advento da prensa de Gutemberg, à atividade ligeira e informativa para o homem que se movia no ritmo dos centros urbanos. Hoje, a leitura se desprendeu do objeto (livro, jornal, revistas etc.) e do ambiente (igrejas, bibliotecas, escolas etc.), para se tornar uma atividade inerente ao cotidiano, o que significa uma mudança na estrutura da recepção textual e, consequentemente, a criação de novas práticas. 

O que não se transformou, contudo, foi o fato de que o ato de ler ainda é a principal forma de apropriação do conhecimento produzido pela humanidade, porque é por meio da leitura que o indivíduo apreende o universo e tudo o que há nele. E não se trata apenas da leitura de signos alfabéticos, como comumente a leitura é entendida, mas de todo e qualquer signo usado na comunicação do ser humano: imagens, símbolos, texturas, sons, ou seja, tudo aquilo que o indivíduo pode transformar em pensamento e linguagem.

 A revolução digital, iniciada na década de 90, tem tornado essa esfera múltipla da leitura cada vez mais evidente, porque no ciberespaço, todas as diferentes linguagens surgem imbricadas, em suportes eletrônicos também variados: celulares, tabletes, leitores digitais, computadores.... Há publicidade, imagens, posts de redes sociais, jogos, links de notícias, músicas, áudios, e todos os outros gêneros, que se entrelaçam como nunca por meio de "nós", os chamados links, exigindo do leitor o trabalho com vários sistemas perceptivos ao mesmo tempo. São leituras não lineares, fragmentadas e fragmentárias, em que o texto que se lê é construído na medida em que é lido.  

A relação do leitor com o texto também mudou, pois está pautada na interatividade. O texto, entendido como esse conjunto de várias linguagens, é plástico, flexível: pode ser copiado, comentado, compartilhado, avaliado, transformado em outros textos, em ações simultâneas ou consequentes ao ato de ler. A leitura tornou-se, assim, uma atividade dinâmica, pois depende de ações do leitor para se concretizar; e complexa, já que requer habilidades como buscar, selecionar, analisar, relacionar, elaborar.


Tamanhas habilidades não podem ser, de modo algum, presumíveis como intrínsecas aos alunos, porque vão além do uso imediato do ciberespaço feito por eles, seja nas redes sociais, nos jogos on-line ou em sites de busca. Elas requerem capacidade de distinção entre os diferentes tipos de práticas de leitura digital, e conhecimento da relação entre essas práticas e os objetivos de leitura, o que também precisa ser ensinado. Afinal, ler um artigo científico requer mobilização de mecanismos de leitura diferentes de quando se lê um tweet, por exemplo. Essa educação do olhar é trabalho da mediação do educador. 

Está posta, portanto, a função do professor junto à leitura digital: partindo dos usos de rede já feitos pelo aluno, e que sem dúvida cumprem sua função, encaminhá-lo para novos percursos de leitura, atuando como um guia, a fim de que ele alcance o uso crítico e consciente do ciberespaço e seja capaz de saltar da fragmentação do conhecimento para uma elaboração com autoria da navegação em rede

Referências: 

CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Editora UNESP, 1998.

SANTAELLA, Lucia. Navegar no ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo: Paulus, 2004. 

SOBRE O AMOR E A MISÉRIA

DOSTOIÉVSKY, Fiódor. Uma criatura dócil2ª ed. Intérprete: Carlos Eduardo Valente. São Paulo: Cosac Naify, 2009. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KG36kY6zDe0 

                                                                                                                                                                                                                               Telma Rubiane Rodrigues de Melo

               

Uma narrativa intensa sobre flagelo e punição, sobre autoengano e autodescoberta. É a história de um desencontro, de um relacionamento sonhado e não realizado, porque quando um finalmente chegou, o outro já não estava. É uma história sobre o tempo de cada um. Assim é Uma Criatura Dócil, de Fiódor Dostoiévski, novela densa escrita em 1839, que, na voz potente de Carlos Eduardo Valente, ator gaúcho, especialista em narração de audiolivros, torna-se ainda mais envolvente. 

Pelas palavras que o autor registra, e que o ator evoca, o ouvinte conhece a narrativa pelo seu fim: há um cadáver de uma jovem sobre a mesa, e o homem solitário na saleta fria é quem conta sua história, a história dos dois, a história dele. O narrador vai se apresentando aos poucos, tanto pelo que ele diz, como pelo que ele não diz (ah… os silêncios, esses subterfúgios secretos em que o ser humano se resvala para escapar daquilo que é indizível…): homem maduro, dono de uma casa de penhores, de situação financeira confortável, orgulhoso de sua posição, viúvo há poucas horas — é o que ele nos conta, entre pausas e gemidos, titubeante, sem certeza das palavras que diz (e todo esse medo e insegurança nos chega pela brilhante interpretação de Valente).  O narrador é agora apenas um vislumbre do que foi, ou o que pensava ser antes de amá-la...           

E então, em uma mudança de  tom de voz, o ouvinte é conduzido até as ruas frias de Moscou, onde pode sentir o vento gélido cortar sua pele enquanto vê uma menina franzina ir a passos lentos e indecisos até a casa de penhores. Ela, a criatura dócil. O ouvinte observa a figura loira e magra que se coloca em frente ao balcão, a fala sussurrada, o olhar acuado, os movimentos pequenos, como se pedisse desculpas por existir. Em suas mãos frágeis, delicadas, pedintes, ela traz objetos tão humildes quanto ela mesma, e sua penhora é como uma súplica. Da segunda vez que vem, o interlocutor já pressente o que a pobre garota tem a penhorar: é a si mesma. E assim é. 

Aos poucos, na narração de Valente, o narrador é despido, camada por camada, diante  de nossos ouvidos, até ficar completamente nu em sua miserável existência: ele é cruel, tem sentimentos vis, é vingativo. A menina, que de cliente vira esposa, é como uma flor que murcha antes mesmo de desabrochar, diante de tanta secura, pois não há beleza que resista ao desamor. O interlocutor, então, é colocado ali como um juiz, perante um homem que se sabe culpado da desgraça que o acometeu, mas que refaz os caminhos que o levaram até o inferno da culpa em uma tentativa de se autoflagelar, mas também de encontrar a redenção. Ele pede perdão, não mais para a esposa, que não pode ouvi-lo, mas para si mesmo e para o leitor, na esperança de ter sua pena atenuada. 

Durante as cerca de duas horas da novela, não existe nenhuma opção de realidade para o ouvinte que não seja a atmosfera cruelmente fria da Rússia do século XIX. Essa é a experiência que este audiolivro oferece: uma realidade paralela, em que o leitor se transforma naquele com quem o narrador compartilha sua loucura, seus delírios; na vizinha que observa o ir e vir da menina órfã que se transforma em esposa, como fuga para a vida deplorável que tinha; na criada que acompanha a mudança progressiva da garota frente à impassibilidade de seu redentor, comprometido que estava em não se entregar, como se o amor fosse uma espécie de fraqueza.  Da mesma forma, o leitor ainda está ali, quando as transformações começam a ocorrer com o narrador, que de sua profunda avareza e altivez, vai se dobrando aos poucos, sem que ele mesmo percebesse, até encontrar os pés da jovem esposa, já absorta em seus próprios sonhos, como a neve que vai cedendo aos raios de primavera. E então o leitor vê o desastre, que já se delineava no horizonte.

Temos aqui um texto genial, em uma narração perturbadora, para a qual o interlocutor é inteiramente absorvido, e do qual só consegue se afastar muito além das duas horas de história. Valente é capaz de agregar a uma obra já brilhante, nuances e cores dramáticas que a tornam ainda mais viva para o leitor, representando com grandiosidade a complexidade desse personagem. Além disso, com sua interpretação versátil, constrói com nuances as demais figuras da narrativa, apresentadas pelo olhar confuso e parcial do narrador, de modo que haja espaço para que o leitor não se sujeite à enganação e faça ele mesmo seu julgamento. Este audiolivro promove, assim, uma experiência sinestésica, de imersão, a ponto de que seguimos com os personagens na experiência deles, como se eles ainda caminhassem pelas mesmas ruas frias em que os conhecemos. Enfim, uma experiência fascinante, e terrivelmente sedutora. 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

TRISTESSA: UM EXERCÍCIO DE EMBRIAGUEZ

     Tristessa, de Marco Antonio Pajola, não é um texto aberto a classificações. E se o chamamos de texto, é para que se possa partir de algum lugar para conhecê-lo e, quem sabe, apreendê-lo em algumas de suas rotas, porque Tristessa é, na verdade, uma viagem. Nessa obra, publicada na web em 1995, a história que se conta é o menos importante. O que há de rico é a sua forma de organizar-se, as múltiplas linguagens com que o autor trabalha e sua vasta intertextualidade, que já começa pelo nome da obra, que se conecta à hiperficção homônima de Jack Kerouac, de 1960.

     🔸 Stockhausen: 

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     🔸 Bryan Ferry, Bête Noire: 

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     🔸 George Winston, Colours: 

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    🔸 Dire Straits, Follow me home: 

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    🔸 James Taylor: 

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    🔸 David Knopfler: 

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    🔸 Dire Straits, Communiqué: 

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    🔸 Joe CockerWith a little help from my friends: 

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CEFAM: UMA EXPERIÊNCIA TRANSFORMADORA, COMO A ESCOLA DEVE SER (Telma Rubiane R. de Melo)

     O escritor John Dewey (1859-1952) foi alguém que acreditou na educação. Para ele, se tinha alguma instituição capaz de transformar a s...