segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

DA FRAGMENTAÇÃO À ELABORAÇÃO: O PAPEL DO PROFESSOR NO ENSINO DA LEITURA DIGITAL

  

Telma Rubiane Rodrigues de Melo


A leitura tem se transformado ao longo dos anos; afinal, enquanto fenômeno social, está intimamente ligada à cultura de seu tempo. De prática silenciosa e contemplativa, na Idade Média, passou, com a Revolução Industrial e o advento da prensa de Gutemberg, à atividade ligeira e informativa para o homem que se movia no ritmo dos centros urbanos. Hoje, a leitura se desprendeu do objeto (livro, jornal, revistas etc.) e do ambiente (igrejas, bibliotecas, escolas etc.), para se tornar uma atividade inerente ao cotidiano, o que significa uma mudança na estrutura da recepção textual e, consequentemente, a criação de novas práticas. 

O que não se transformou, contudo, foi o fato de que o ato de ler ainda é a principal forma de apropriação do conhecimento produzido pela humanidade, porque é por meio da leitura que o indivíduo apreende o universo e tudo o que há nele. E não se trata apenas da leitura de signos alfabéticos, como comumente a leitura é entendida, mas de todo e qualquer signo usado na comunicação do ser humano: imagens, símbolos, texturas, sons, ou seja, tudo aquilo que o indivíduo pode transformar em pensamento e linguagem.

 A revolução digital, iniciada na década de 90, tem tornado essa esfera múltipla da leitura cada vez mais evidente, porque no ciberespaço, todas as diferentes linguagens surgem imbricadas, em suportes eletrônicos também variados: celulares, tabletes, leitores digitais, computadores.... Há publicidade, imagens, posts de redes sociais, jogos, links de notícias, músicas, áudios, e todos os outros gêneros, que se entrelaçam como nunca por meio de "nós", os chamados links, exigindo do leitor o trabalho com vários sistemas perceptivos ao mesmo tempo. São leituras não lineares, fragmentadas e fragmentárias, em que o texto que se lê é construído na medida em que é lido.  

A relação do leitor com o texto também mudou, pois está pautada na interatividade. O texto, entendido como esse conjunto de várias linguagens, é plástico, flexível: pode ser copiado, comentado, compartilhado, avaliado, transformado em outros textos, em ações simultâneas ou consequentes ao ato de ler. A leitura tornou-se, assim, uma atividade dinâmica, pois depende de ações do leitor para se concretizar; e complexa, já que requer habilidades como buscar, selecionar, analisar, relacionar, elaborar.


Tamanhas habilidades não podem ser, de modo algum, presumíveis como intrínsecas aos alunos, porque vão além do uso imediato do ciberespaço feito por eles, seja nas redes sociais, nos jogos on-line ou em sites de busca. Elas requerem capacidade de distinção entre os diferentes tipos de práticas de leitura digital, e conhecimento da relação entre essas práticas e os objetivos de leitura, o que também precisa ser ensinado. Afinal, ler um artigo científico requer mobilização de mecanismos de leitura diferentes de quando se lê um tweet, por exemplo. Essa educação do olhar é trabalho da mediação do educador. 

Está posta, portanto, a função do professor junto à leitura digital: partindo dos usos de rede já feitos pelo aluno, e que sem dúvida cumprem sua função, encaminhá-lo para novos percursos de leitura, atuando como um guia, a fim de que ele alcance o uso crítico e consciente do ciberespaço e seja capaz de saltar da fragmentação do conhecimento para uma elaboração com autoria da navegação em rede

Referências: 

CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Editora UNESP, 1998.

SANTAELLA, Lucia. Navegar no ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo: Paulus, 2004. 

SOBRE O AMOR E A MISÉRIA

DOSTOIÉVSKY, Fiódor. Uma criatura dócil2ª ed. Intérprete: Carlos Eduardo Valente. São Paulo: Cosac Naify, 2009. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KG36kY6zDe0 

                                                                                                                                                                                                                               Telma Rubiane Rodrigues de Melo

               

Uma narrativa intensa sobre flagelo e punição, sobre autoengano e autodescoberta. É a história de um desencontro, de um relacionamento sonhado e não realizado, porque quando um finalmente chegou, o outro já não estava. É uma história sobre o tempo de cada um. Assim é Uma Criatura Dócil, de Fiódor Dostoiévski, novela densa escrita em 1839, que, na voz potente de Carlos Eduardo Valente, ator gaúcho, especialista em narração de audiolivros, torna-se ainda mais envolvente. 

Pelas palavras que o autor registra, e que o ator evoca, o ouvinte conhece a narrativa pelo seu fim: há um cadáver de uma jovem sobre a mesa, e o homem solitário na saleta fria é quem conta sua história, a história dos dois, a história dele. O narrador vai se apresentando aos poucos, tanto pelo que ele diz, como pelo que ele não diz (ah… os silêncios, esses subterfúgios secretos em que o ser humano se resvala para escapar daquilo que é indizível…): homem maduro, dono de uma casa de penhores, de situação financeira confortável, orgulhoso de sua posição, viúvo há poucas horas — é o que ele nos conta, entre pausas e gemidos, titubeante, sem certeza das palavras que diz (e todo esse medo e insegurança nos chega pela brilhante interpretação de Valente).  O narrador é agora apenas um vislumbre do que foi, ou o que pensava ser antes de amá-la...           

E então, em uma mudança de  tom de voz, o ouvinte é conduzido até as ruas frias de Moscou, onde pode sentir o vento gélido cortar sua pele enquanto vê uma menina franzina ir a passos lentos e indecisos até a casa de penhores. Ela, a criatura dócil. O ouvinte observa a figura loira e magra que se coloca em frente ao balcão, a fala sussurrada, o olhar acuado, os movimentos pequenos, como se pedisse desculpas por existir. Em suas mãos frágeis, delicadas, pedintes, ela traz objetos tão humildes quanto ela mesma, e sua penhora é como uma súplica. Da segunda vez que vem, o interlocutor já pressente o que a pobre garota tem a penhorar: é a si mesma. E assim é. 

Aos poucos, na narração de Valente, o narrador é despido, camada por camada, diante  de nossos ouvidos, até ficar completamente nu em sua miserável existência: ele é cruel, tem sentimentos vis, é vingativo. A menina, que de cliente vira esposa, é como uma flor que murcha antes mesmo de desabrochar, diante de tanta secura, pois não há beleza que resista ao desamor. O interlocutor, então, é colocado ali como um juiz, perante um homem que se sabe culpado da desgraça que o acometeu, mas que refaz os caminhos que o levaram até o inferno da culpa em uma tentativa de se autoflagelar, mas também de encontrar a redenção. Ele pede perdão, não mais para a esposa, que não pode ouvi-lo, mas para si mesmo e para o leitor, na esperança de ter sua pena atenuada. 

Durante as cerca de duas horas da novela, não existe nenhuma opção de realidade para o ouvinte que não seja a atmosfera cruelmente fria da Rússia do século XIX. Essa é a experiência que este audiolivro oferece: uma realidade paralela, em que o leitor se transforma naquele com quem o narrador compartilha sua loucura, seus delírios; na vizinha que observa o ir e vir da menina órfã que se transforma em esposa, como fuga para a vida deplorável que tinha; na criada que acompanha a mudança progressiva da garota frente à impassibilidade de seu redentor, comprometido que estava em não se entregar, como se o amor fosse uma espécie de fraqueza.  Da mesma forma, o leitor ainda está ali, quando as transformações começam a ocorrer com o narrador, que de sua profunda avareza e altivez, vai se dobrando aos poucos, sem que ele mesmo percebesse, até encontrar os pés da jovem esposa, já absorta em seus próprios sonhos, como a neve que vai cedendo aos raios de primavera. E então o leitor vê o desastre, que já se delineava no horizonte.

Temos aqui um texto genial, em uma narração perturbadora, para a qual o interlocutor é inteiramente absorvido, e do qual só consegue se afastar muito além das duas horas de história. Valente é capaz de agregar a uma obra já brilhante, nuances e cores dramáticas que a tornam ainda mais viva para o leitor, representando com grandiosidade a complexidade desse personagem. Além disso, com sua interpretação versátil, constrói com nuances as demais figuras da narrativa, apresentadas pelo olhar confuso e parcial do narrador, de modo que haja espaço para que o leitor não se sujeite à enganação e faça ele mesmo seu julgamento. Este audiolivro promove, assim, uma experiência sinestésica, de imersão, a ponto de que seguimos com os personagens na experiência deles, como se eles ainda caminhassem pelas mesmas ruas frias em que os conhecemos. Enfim, uma experiência fascinante, e terrivelmente sedutora. 

CEFAM: UMA EXPERIÊNCIA TRANSFORMADORA, COMO A ESCOLA DEVE SER (Telma Rubiane R. de Melo)

     O escritor John Dewey (1859-1952) foi alguém que acreditou na educação. Para ele, se tinha alguma instituição capaz de transformar a s...