terça-feira, 8 de junho de 2021

A LEITURA COMO ACONTECIMENTO

                                                                                                                                  Telma R. R. de Melo


    A mão que me trouxe para a leitura foi a da minha irmã mais velha. Eu a admirava, porque ela representava o que eu aspirava um dia ser: ela era linda, independente, cheia de amigos, e eu, inconscientemente, procurava fazer o que ela fazia, resguardados nossos sete anos de diferença. E ela lia, muito, embora um tipo de livro específico: romances, daqueles de banca, com nomes de mulher.
    Um dia, peguei um deles para ler. Eu devia ter uns oito anos. Claro que foi uma decepção. Primeiro, eu não entendia muito bem o que acontecia ali, pois eram sentimentos e desejos que não estavam no meu universo de criança; além disso, havia uma porção de nomes de lugares e pessoas em inglês, que eram como se fossem pedras no meio da minha leitura. Eu queria ler, como ela, mas com certeza não aquilo.
Não tínhamos livros em casa, além desses romances e das revistas de cifras do meu irmão. O que lia, portanto, lia na escola, e apenas o que era oferecido pelo professor, ou seja, os textos que estavam no livro didático. Não havia biblioteca ou sala de leitura, e hoje eu me pego pensando como uma ação tão óbvia, como incentivar a leitura nas crianças, não era preocupação de ninguém…
Então eu dependia do acaso para ler, da sorte. Lembro de me encantar com a bíblia para crianças que minha prima comprou para os filhos, e passar todo meu tempo livre com ela, até chegar ao final. Era um livro grande, com ilustrações lindas, que me ajudou a construir uma versão mais colorida dos ensinamentos do catecismo, sempre tão severo. Foi difícil me despedir dele, quando ela resolveu que ia finalmente lê-lo para suas crianças. Afinal, se eu tinha gostado tanto, é porque devia ser bom...
Anos depois, tive outro encontro com a sorte. Todos os dezembros, nas férias, eu ia para a casa da minha tia, em Monteiro Lobato, e ficava por lá um mês. Na época, a cidade já era estância turística, lugar em que as pessoas tinham casa de campo, e vinham só para relaxar. Tia Maria fazia faxina em uma dessas casas. Os donos moravam na capital, e vinham aos fins de semana; então, ela limpava a casa sempre na sexta-feira, pela manhã. Em uma dessas sextas, tia Maria me levou com ela para ajudá-la. Logo que cheguei lá, vi, na sala de estar, a estante cheia de livros… Passei um bom tempo olhando as lombadas, lendo os nomes, tentando descobrir que história eles guardavam para mim. Eram muitos, mas o livro que mais me fascinou foi “O Triângulo das Bermudas”, de Charles Berlitz. Nunca tinha lido um livro tão grosso, mas ele parecia tão interessante, que me aventurei… Não ajudei minha tia naquele dia, e nem em nenhum outro dia em que voltei na casa.
    Foi uma leitura em fases, porque eu não podia levá-lo comigo. Ele não me pertencia. Então, esperava, angustiada, até a próxima sexta-feira, para continuar a lê-lo. Passei o mês assim, até que, no final de janeiro, voltei para minha casa, em São José, e fiquei esperando até o próximo ano… Passei uns três anos dessa maneira, lendo Charles Berlitz aos poucos, rezando para que ele ainda estivesse lá, me esperando para contar os seus mistérios. Era como um caso de amor, cheio de idas e vindas; encontros e separações. Nunca terminei a leitura, e nem entendi direito o que se passava naquela área remota do planeta, mas aquele livro foi uma companhia especial para mim, pois fazia me sentir adulta, compartilhando um segredo que só eu e ele sabíamos.
    A fortuna só veio mesmo, para mim, quando entrei no magistério e comecei a fazer estágio em uma escola pública de São José, em um dos prédios mais antigos do centro da cidade. Como estagiários em sala de aula normalmente não eram bem vindos pelo professor, me perguntaram se eu poderia ajudar a organizar os livros na biblioteca da escola. Eu me controlei para não demonstrar a euforia que aquelas palavras provocaram em mim! Quando eu entrei na sala, com estantes repletas de livros, e caixas e caixas fechadas deles, era como se de repente eu pudesse voar. Era uma sala suja e escura, mas o que eu via ali era uma janela imensa, para um céu azul e límpido — minha versão pessoal de paraíso. Passei a ficar as tarde lá, uma ou duas vezes por semana, e a diretora também me permitia levar os livros para casa, porque via que para mim eles tinham grande valor. Foi ali, naquele espaço empoeirado, que conheci Lígia Fagundes Telles e “As meninas”, que ficamos próximas. Elas me contaram sobre desejo, sexo e amor; sobre tristeza e solidão; sobre maldade. Enfim, sobre o ser humano, sob o fundo vergonhoso da ditadura, que eu sabia das aulas de história, mas que só compreendi mesmo pela voz delas.
Quando me tornei professora, aos 18 anos, me transformei também em uma contadora de histórias. Primeiro, na Educação Infantil; depois, na Sala de Leitura. Eu me divertia muito! Lia para as crianças, dramatizava os contos, e depois indicava as obras para que elas levassem para a casa. Eram tempos de fartura! Eu aprendi bastante, nessa época, sobre literatura infantil e juvenil, porque precisava ler para selecionar o que poderia ser indicado para os alunos. Mais velha, já trabalhando como professora de Língua Portuguesa, abria todas as aulas com leitura de poemas, notícias, enfim, textos curtos. Com o tempo, os alunos passaram a fazer o mesmo, e levar os textos que gostariam de ler para todos. Acho que consegui passar minha paixão para eles, e não posso imaginar as aulas de Língua Portuguesa de outra maneira que não seja com leitura e compartilhamento.
Tive excelentes professores ao longo da minha vida escolar e acadêmica, pessoas realmente inspiradoras, que me ensinaram muitos valores, como foco, disciplina, posicionamento crítico, senso estético, e serviram de bons modelos na minha profissão. Com certeza eles contribuíram para eu fazer as escolhas certas. Sou muito grata a todos. No entanto, minhas experiências pessoais mais marcantes de leitura nunca foram as escolarizadas. Meu encantamento pelos livros vem de antes, dos acasos, tropeços e encontros da minha trajetória. A escola me instrumentalizou, sim, e muito, para a leitura e para a escrita, mas não me deu paixão, do mesmo modo que não colaborou para construir em Paulo Leminski um amante da Língua Portuguesa, como ele sugere em seu poema "Meu Professor de Análise Sintática". Ainda assim, ele se transformou em um poeta, mestre nessa matéria etérea que é a língua. Ainda assim, eu me transformei em uma leitora.
    Às vezes acho que eu descobri algo que meus professores não quiseram ou não souberam compartilhar, que é esse prazer, esse deleite que a leitura dá, abstenção da realidade, sublimação do presente, possibilidade de estar em outro lugar, vivendo uma outra história, ou simplesmente aprendendo com alguém que tem algo a dizer, ao mesmo tempo que se vive o agora. A beleza disso é que, se o fascínio pela leitura aconteceu comigo, pode ser que aconteça a qualquer um. A tristeza é que o gosto pela leitura certamente não deveria depender do acaso, pois, dada sua reconhecida importância para a inserção do indivíduo na sociedade, ela deveria ser incentivada desde cedo, tanto pela família quanto pela escola.
    Decisivamente, nos dias atuais, livros, revistas, jornais e textos escritos são muito mais acessíveis do que o eram na década de 80, em que me alfabetizei, especialmente com a contribuição das mídias digitais. Apenas o acesso, contudo, não garante a construção de leitores. É preciso também bons modelos. A criação do hábito da leitura, que diferencia o indivíduo que lê para as tarefas escolares, daquele que lê para si mesmo, depende muito da relação estabelecida com a escrita na escola, e essa, sem dúvida alguma, é influenciada drasticamente pelo trabalho dos professores. Sendo assim, bons educadores são essenciais para o desenvolvimento de leitores, e para cumprir essa missão são necessários professores que acreditem no poder da leitura. Ou seja, professores leitores. Sem eles, dependeremos sempre da sorte.

UMA LITERATURA FANTÁSTICA PARA AS DORES REAIS DE NOSSA AMÉRICA LATINA

 ALLENDE, Isabel. A Casa dos Espíritos. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1994.



Telma R. R. de Melo


Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem. 
 Pablo Neruda


    O romance de estreia de Isabel Allende, “A casa dos espíritos”, de 1982, versa sobre a história das quatro gerações da família Del Valle (1905 -1975), cuja personagem central é Clara, que surge menina na narrativa, com poderes sobrenaturais, e a termina como vó fantasma que perambula por uma mansão já em decadência. Por intermédio dos ricos e ilustres Del Valle, que mais tarde se unem aos Trueba, o leitor conhece várias passagens da história chilena, desde seus grandes latifúndios herdados pelo colonialismo e marcados pelo patriarcado, até os duros porões de sua terrível ditadura.
   
A obra se altera entre a primeira e terceira pessoa, entre as vozes distintas e opostas do amargo e ressentido viúvo de Clara, Esteban Trueba, que representa o que há de pior em termos de valores nas oligarquias de direita, e da jovem Alba, neta de Clara e militante revolucionária de esquerda. Entre essas duas vozes, os cadernos da própria Clara, trazendo os registros familiares dessas memórias que se dividem entre uma biografia e uma ficção de realismo fantástico.

    A riqueza e exuberância da cultura latino americana está representada no livro “A casa dos espíritos”, tanto na grande quantidade de personagens e de eventos fantásticos, quanto nos registros da fartura das festas, com abastança de comida, danças e música; nas crenças, que ilustram o sincretismo ocorrido nessas terras entre a fé católica e o folclore regional, e na opulência e sensualidade desse povo que não se furta aos desejos da carne. No entanto, a miséria, a fome e a catástrofe também estão presentes no livro, especialmente na apresentação da vida dos camponeses, envolta em ignorância e dependência dos humores de seus patrões.

    A história da família Del Valle-Trueba é, de certa forma, a história dos países latino-americanos, resguardada toda a magia que nos faltou para suportar as mazelas dessa trajetória, e que no livro funciona como um opioide. Ali está representada a destruição da cultura ameríndia, e a impotência desses povos contra os europeus colonizadores, que os reduziram a servos de feudos então chamados de fazenda. Também ali está marcada a ignorância cultural que engendrou o eterno sentimento de inferioridade que ainda nos marca a nós, donos de uma das culturas mais ricas do planeta: vergonha da língua, vergonha dos hábitos, vergonha das crenças.

    O panorama político, apresentado como fundo para a narrativa, traz a ascensão e a queda de um governo comprometido com as causas camponesas, socialista por definição, e representado pela figura de “O Candidato”, para o qual a autora não dá nome no texto, mas que, pelas fortes características biográficas da história, sabe-se tratar-se do ex-presidente Salvador Allende, deposto durante o golpe militar de 1973, e tio da autora. Repete-se no Chile os governos ditatoriais que já se apossavam das jovens democracias latino-americanas. E então, lá, como aqui, temos os mantos negros da censura, dos campos de concentração e da tortura, às quais nem mesmo “O Poeta” (Pablo Neruda, também não nominado) pôde suportar.


    Daí certo desconforto que nos dá diante desse espelho de águas turvas para nossos próprios infortúnios. Trata-se de uma história emocionante, brilhante em sua abundância de descrição de cenários e personagens maravilhosos e, ao mesmo tempo, tão reais em suas dores e pungências. Leitura que faz chorar, bem mais do que pelos dramas vivenciados pelos personagens, mas por se saber que a América Latina mal se curou de suas antigas feridas, outras novas já se abrem, em uma mão que pede socorro.

CEFAM: UMA EXPERIÊNCIA TRANSFORMADORA, COMO A ESCOLA DEVE SER (Telma Rubiane R. de Melo)

     O escritor John Dewey (1859-1952) foi alguém que acreditou na educação. Para ele, se tinha alguma instituição capaz de transformar a s...