O escritor John Dewey (1859-1952) foi alguém que acreditou na educação. Para ele, se tinha alguma instituição capaz de transformar a sociedade em um ambiente mais justo e igualitário, esse lugar era a escola. E por acreditar nisso com tanta, tanta força, ele não só saiu divulgando isso em seus artigos, como foi lá e construiu esse modelo de escola. Isso nos Estados Unidos do início do século. Não era pouca coisa. As palavras de Dewey me lembram muito o período em que entrei no magistério, em um projeto de formação de professores, já extinto, chamado CEFAM (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério), em São José dos Campos (SP).
Obra "Vida e Alegria", de Joarez Filho (acervo pessoal) Estávamos em 1991, e eu tinha 14 anos. Sabia pouco, muito pouco da vida, apenas o suficiente para sobreviver e não arrumar confusão no bairro em que vivia, com meus pais, quatro irmãos e uma sobrinha. Éramos pobres, isso eu sabia, mas a dimensão social do que era ser pobre, causas, consequências e relação com a política e a economia do país, bem, disso eu não tinha a menor ideia. Via a pobreza como uma condição natural, comum a todos com quem eu convivia: meus amigos eram pobres, meus vizinhos eram pobres; meus primos tios avós, todos eram pobres, como eu, como nós. Havia estudado a vida inteira em escola pública, de periferia, e convivido com crianças pobres como eu, que nunca se perguntaram porque eram pobres, e que nunca haviam sido levadas a refletir sobre a pobreza como algo além de um fato, uma condição.
Nossos professores, eles provavelmente não eram pobres, pelo menos não como a gente, por causa das roupas, dos carros, do modo como falavam e agiam. E eles jamais, nunca mesmo, falavam sobre pobreza ou riqueza ou coisas do tipo. Isso não era matéria do livro, nem da lousa. O mundo do qual se tratava na sala de aula era um mundo à parte, totalmente diferente do mundo em que vivíamos, e nos acostumamos muito cedo a isso. Se tínhamos alguma pergunta, se quiséssemos fazer alguma relação entre esses dois mundos tão distantes, o deles e o nosso, a resposta era “Não, isso é outra coisa”. Mas que coisa era essa, afinal, que a gente era? Pergunta difícil, que ninguém se decidia a responder. Era a pedagogia feita para silenciar.
Foi com essa consciência parca, miúda de mim mesma e de minha origem, que me inscrevi para fazer o magistério no CEFAM. Naquela época, na vida que vivíamos, não havia isso de orientação dos pais. Contanto que não fosse um crime, você ia e fazia o que achava que devia fazer, porque os pais estavam ocupados demais trabalhando, sufocados pelo dia a dia e pelos solavancos permanentes da sobrevivência. Era a gente pela gente mesmo, e nossos instintos. Com sorte, algum amigo para ajudar. Comigo foi assim. Eu e minha amiga decidimos pelo CEFAM, depois de terminar a 8ª série. Magistério, porque dava uma profissão, o que precisávamos muito. CEFAM, porque oferecia dinheiro, um valor suficiente para pagar o transporte e o almoço, já que o curso era integral. Entre mim e todo esse reino de vantagens, um processo seletivo, um mundo...
Quando se chega a um lugar com pessoas diferentes de você, em que as coisas mais simples, como cadeira, mesa, copo, chão, não são como as suas, é instintivo se esconder. É uma defesa que a gente aprende desde cedo. Foi assim na entrevista para entrar no CEFAM. Eu, criatura crua, imobilizada pelo medo de que minha fala ou meus gestos denunciassem quem eu era, fui tateando, respondendo as perguntas sem florear, temendo… Afinal, no vão entre uma palavra e outra, em um deslize, podia cair em erro, ser pega, ser descoberta, e fim. Mas a fala também pode ser mão esticada, recepção, e foi então que eu percebi que a história que eu tinha para contar, e que eu silenciava, o lugar de onde eu vinha, que eu escondia, era exatamente o que aqueles professores que me entrevistavam desejavam ver em mim. Você não sabe o sentido de ser bem vindo pelo que você é, até o dia em que você de fato o é. E foi assim que eu me senti.
John Dewey lutou por uma educação para a atuação social, em que a escola funcionasse como uma comunidade comprometida em dar aos seus estudantes a oportunidade de vivenciar a participação democrática, e a partir dela, se incluir na sociedade. Ele foi um pensador que superou os limites da teoria para conceber uma proposta de educação para a prática, no momento em que essa transformação era pungente, dados o crescimento do capitalismo na sociedade americana e o aprofundamento das diferenças de classe. Dewey foi um pragmático de fé, que acreditava no poder transformador da escola, e em sua face indissociavelmente política, porque espaço de construção da cidadania.
Analisando a proposta do CEFAM com o olhar atual, adulto, vejo que ela se aproximava muito dessa educação transformadora de Dewey, e do objetivo de formar cidadãos conscientes da realidade em que estavam inseridos, preparados para participar da sociedade com consciência crítica. Nossos professores promoviam debates, fóruns, entrevistas, experiências de laboratório, palestras, e muitas, muitas discussões. Votava-se sobre tudo. Vivíamos em um ambiente democrático, em que todos mereciam ser ouvidos e toda problemática merecia análise, como preconizava Dewey ao tratar sobre “investigação criativa e científica aos problemas sociais”. Foi lá que eu aprendi a ter consciência de classe, e senti as dores que advém dela.
Éramos adolescentes de 14 a 17 anos, e já organizávamos passeatas, escrevíamos manifestos, promovíamos protestos! Ainda me lembro de irmos para a capital, em ônibus lotados, para participar do “Fora Collor!”, na Avenida Paulista, em minha primeira manifestação nacional. Todos nós lá, meninos e meninas verdinhos, em construção, cheios de sonhos e esperança, destemidos. Nossos educadores, firmemente pautados em uma proposta pedagógica que deixaria Dewey orgulhoso, estavam sempre conosco, para nos apoiar. Eles não nos tratavam como diferentes, tampouco como iguais: apostavam no nosso vir a ser, e isso faz toda a diferença na educação. Acreditar no porvir.
Eu passei por essa experiência, e todo meu percurso posterior foi modificado por ela. Dewey estava certo. Educação transforma. Podem apostar que sim.
Excelente o seu texto amiga,senti minha vida e emoções descritas nele e como é bom o despertar critico proporcionado por bons professores.
ResponderExcluirParabéns!
Muito obrigada. Muito feliz por ouvir isso.
ExcluirVocê sempre arrasa com seus textos... Muito agradável ouvir seus relatos, sinto como se eu estivesse vivido a história. Parabéns 👏👏
ResponderExcluirA nossa realidade da época do CEFAM escrita com tanta sensibilidade. Me reportei aquele tempo mágico que me formou não somente como profissional,mas como cidadã. Obrigada pela recordação!
ResponderExcluirEu que agradeço Cibelle. Forte abraço.
ExcluirMaravilhoso ler isso..."Você não sabe o sentido de ser bem vindo pelo o que é, até o dia em que você de fato o é".
ResponderExcluirMaravilhoso ler seu texto como um todo... Gratidão pela partilha da sua história!
Puxa, fico tão feliz de ouvir isso. Você nem tem ideia. Muito obrigada. Forte abraço.
ExcluirMinha mãe me conta com muito orgulho essas histórias, e provavelmente estavam lado a lado nesta jornada. Parabéns pelo texto
ResponderExcluirMuito obrigada pelo carinho Gabriel!
ExcluirObrigada Heleninha. Fico feliz por isso.
ResponderExcluirO CEFAM foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Lindo texto, me emocionou demais. Muito obrigada!
ResponderExcluirEu que agradeço seu carinho de ler e deixar um comentário. Obrigada mesmo. ❤
ExcluirDesde muito cedo você tem a escrita como sua maior aliada e ferramenta de trabalho, deleite e inspiração. Esse texto,em especial ao citar Dewey destaca sua relação tão íntima e duradoura com a escrita.Bjs bjs com Carinho
ResponderExcluirObrigada Lu! Que bom que gostou.
ExcluirMuito grata por ler seu texto. Me tocou em profundidade, inclusive porque traz a dor potência. Na parte que você fala sobre a diferença dos corpos professores estudantes me afeta demais, seu relato é vivo e profundo. Gratidão!!!
ResponderExcluirObrigada Vivian querida. Vindo de você, eu me sinto muito, muito lisonjeada.❤
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